sexta-feira, 3 de maio de 2013

Só a mente pode libertar o jornalista da sua própria escravidão

Por L.J. Sardá
Jornalista e professor

Quero falar de outra liberdade.

A opressão que sofrem jornalistas em países de convulsões políticas permanentes é histórica, impetuosa e condenável. Mas o que deveriam preocupar também neste terceiro milênio, a era da revolução tecnológica, é a autocensura de jornalistas e a censura escamoteada que se exaure na própria enxurrada da informação diária.

Eu comparo, às vezes, o jovem jornalista com o jovem que acaba de receber o diploma de médico. O jornalista jovem, ainda desprovido de uma ideologia ou, pelo menos, de visão e sentimento social, alimenta-se de um olhar passivo da sociedade e enxerga o fato sob a ótica do espetáculo midiático, o que compõe o teatro da emoção em detrimento da razão. O jovem médico brasileiro, em sua grande maioria, é fruto de uma casta social elevada e dificulta a relação humana entre a saúde e a sociedade. O médico no Brasil ainda vive em pedestal, com algumas exceções. Há poucos dias, um jovem recém-formado em medicina, justificou-se por que ainda não ingressara em uma residência para alcançar uma especialização: “por enquanto estou dando plantão e ganhando R$ 17 mil por mês”.

A censura escamoteada é ignorar fatos que acabam passando despercebidos porque não alcançaram ainda a notabilidade e o delírio midiático. Por exemplo: um evento de tênis reuniu craques do exterior em um hotel de luxo na Ilha. Ótimos e merecidos destaques na mídia. O espetáculo, entretanto, consumiu cerca de R$ 600 mil dos cofres da Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes. Por que o dinheiro público tem que ter endereço particular? Agora, se houvesse uma denúncia pública, aí a mídia se sentiria obrigada a correr atrás.

A maior censura que infecciona os meios de comunicação de massa está no olho social do jornalista, tanto de editores quanto de repórteres, setoristas e colunistas.

Por que o Dia das Mães tem sido pautas sucessivas para apenas mensurar os negócios do comércio? Será que mãe é consumo?

Por que jornalistas vêem as concentrações de pobreza sob o olhar a violência? E por que quando sobem o morro estabelecem o divisor nietzschiano entre o bem e o mal? Como observa Nietsche, no que é mal se sente a periculosidade, a força do terrível, enquanto o bom desperta a vivacidade, o prazer. Aliás, jornalista quando sobe o morro é prenúncio de notícias sobre violência humana.

Goethe dizia que digno de liberdade é quem sabe conquistá-la. Sentir liberdade é o mesmo do que viver a liberdade? Ainda hoje se cultua Tim Lopes como referência de coragem contra opressão. Por que não temos a coragem de abrir as cortinas do teatro social brasileiro e acabar com o foco entre o bem e o mal? Por que a nossa liberdade jornalística está escondida atrás dos panos de uma dramaturgia cega, como se tivéssemos medo ou desdouro de mergulhar firme nos equívocos de uma nação enraizada na miséria social?

Por que a mídia se limita a denunciar atos de corrupção e não questiona a ausência de tecnologia moderna no controle de licitações e liberações de recursos? Por que o asfalto de rodovias públicas dura menos de um ano, enquanto nas estradas lotadas de pedágios o novo pavimento é mais resistente?

Por que a greve de professores nos impõe a pauta focada apenas no sacrifício de milhares de alunos sem aula? Por que não se descreve a vida de um professor que leciona em dois períodos com salário de R$ 1.200,00?

Por que a greve na saúde é focada na dor dos doentes? Afinal, a causa dos sérios problemas da saúde está nos doentes ou na decadência de postos, centros e hospitais e de estruturas de pessoais defasadas?

Bem, no dia da liberdade de imprensa é necessário que reflitamos sobre a censura que nós jornalistas impomos em nosso próprio exercício.

Como questiona A. Graf, se não tens liberdade interior, que outra liberdade esperas alcançar?

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